Arquivo da tag: Afro-etnomatemática

Afro-etnomatemática: isso pode ser uma coisa bem legal

Por Tabita Lopes

Todos os povos têm os seus saberes, seu acúmulo específico de experiências, aprendizados, invenções. O raciocínio, a razão, o pensamento lógico e abstrato, as capacidades de observar, comparar, medir, selecionar… estão presentes em todas as sociedades.

A matemática que conhecemos – esta que aprendemos e ensinamos na escola – é europeia. Foi conformada a partir das necessidades da Revolução Industrial e da enorme expansão econômica e cultural daquelas sociedades naquele momento. Desenvolveram-se assim regras e métodos, dividindo e subdividindo com rigor, diferenciando a chamada ciência moderna dos saberes produzidos sob a égide da religião, no período anterior (Idade Média).

O problema é que a ciência cartesiana, acompanhando o impulso expansionista e colonialista europeu, se impôs como verdade, esmagando os saberes dos outros povos. Frente a outras formas de apreender as coisas e o mundo, os historiadores da matemática e da ciência enxergam estágios primitivos na evolução das ideias. Nesse paradigma fomos escolarizados e adentramos uma universidade que afinal não é universal, já que não reflete os saberes dos diversos povos.

Nesse contexto, o ensino da matemática tem se mostrado contraproducente, sendo o “gargalo” do aproveitamento escolar (a disciplina tida como mais “difícil”), gerando problemas de auto-estima e afastando crianças e adolescentes da escola. Esses conflitos são ainda maiores onde estudam os filhos da classe trabalhadora, em sua maioria negros e negras – cenário em que (além de todas as irracionalidades de uma estrutura caduca) as violências do racismo tem se disfarçado de bulling.

Temos uma matemática muito abstrata, que começa e termina no papel, afogando-se nas águas geladas dos cálculos. Esses saberes, que se constituíram como passos largos do conhecimento humano sobre o mundo, não tem se ligado à vida – servem a uma mera preparação para o mercado de trabalho, para administrar a economia e as tecnologias existentes. A verdade é que essa matemática que está aí é muito chata!

A boa notícia, então, é que existem outras matemáticas e outras formas de organizar os saberes lógicos e abstratos. Para início de conversa, é preciso dizer que os conhecimentos que chegaram até nós não são um acúmulo unicamente dos europeus: basta lembrar que os primeiros matemáticos, como Tales de Mileto e Pitágoras, desenvolveram suas teorias e contribuições depois de longas viagens à região da Babilônia, Ásia menor (Turquia) e norte da África, principalmente o Egito, grande ponto de encontro entre a Europa, a África e a Ásia. Ali, se impressionaram com as pirâmides, a avançada tecnologia agronômica, a biblioteca de Alexandria e os aprofundados estudos de Astronomia, Geometria, Trigonometria, Filosofia etc. Como aponta Deivison Nkosi: “a nossa noção de ciência parte do pressuposto de que tudo veio ou iniciou-se na Grécia e de que os outros povos em nada contribuíram, quando na verdade a África, seus povos e suas produções são fundamentais em todos esses processos”.

A matemática – do grego mathema, explicar, conhecer, e tica, de arte ou técnica – é portanto uma construção social e histórica que reuniu diversos saberes, utilizados na relação das pessoas com o espaço (nas construções, na agricultura, na relação com a natureza) e consigo mesmas, sem deixar de fora a reflexão sobre a arte, a beleza, a subjetividade humana. Os matemáticos eram também filósofos, pensando o lugar do ser humano no mundo.

É este resgate que tem sido buscado pelos pesquisadores e educadores da etnomatemática. Desde os anos 1960, o professor Ubiratan D’Ambrósio vem discutindo sobre as consequências nefastas da educação eurocêntrica e a necessidade urgente de rever o ensino e o próprio conhecimento, questionando sua construção histórica e os interesses políticos e ideológicos nela envolvidos. A etnociência e a etnomatemática partem da história, da política e da antropologia, realizam um extenso percurso de desconstrução e chegam finalmente à pedagogia, trazendo consigo uma rica bagagem. A proposta é a do multiculturalismo, entendendo as diferentes culturas como igualmente importantes e apontando para o reconhecimento e valorização de outras abordagens para além da ocidental eurocentrada. As pesquisas históricas e antropológicas tem um papel chave nesse processo, realizando uma arqueologia dos saberes produzidos pelos povos que foram colonizados – eventualmente encobertos por muitas camadas de outros saberes, artificialmente (e violentamente) sobrepostos pelos colonizadores.

Nesse contexto tem tido grande relevância os estudos sobre a matemática na África, área que vem sendo chamada de afro-etnomatemática. O professor Henrique Cunha Jr., da Universidade Federal do Ceará, é um dos pesquisadores que tem chamado atenção para o fato de que as ciências exatas tem uma base africana, sendo necessário conhecer e valorizar essas experiências culturais e históricas para que se possa aproveitar as contribuições desses povos. Manuel Quirino, Teodoro Sampaio e André Rebouças são alguns exemplos de homens negros que se destacaram no Brasil como engenheiros, construtores e outras profissões ligadas aos cálculos matemáticos. Essas histórias precisam ser conhecidas, assim como a própria história da matemática ligada à África, para que seja possível introduzir valores africanos e afro-brasileiros na educação.

É nesse sentido que a educação indígena, quilombola e mesmo a tradicional tem caminhado, na esteira das Leis 10.639 (2003) e 11.645 (2008), que estabelecem a obrigatoriedade do ensino da história e cultura afro-brasileira e indígena. A matemática não precisa começar no papel: pode começar na cabeça, exercitando as habilidades da memória e da oralidade. Pode ir para os jogos, para as brincadeiras, adivinhações – em tudo isso também há análise combinatória, estatística, equações, logaritmos. Pode passar pela música. A geometria pode sair dos cadernos quadriculados e esparramar-se pelos tecidos, dar as caras no artesanato, deparar-se com a capoeira.

Paulus Gerdes, um verdadeiro antropólogo da matemática, estuda a arte sona, antiga tradição do povo quioco, na Angola. Ele mostra como esses desenhos – geralmente executados pelos mais velhos, ilustrando lendas, adivinhações e histórias – exercitam habilidades relacionadas aos eixos de simetria, à proporção e aos ritmos aritméticos ou geométricos (algoritmos), utilizados em informática. Ou seja, uma matemática que não está divorciada da brincadeira, do lúdico e da preservação de uma sabedoria ancestral.

A matemática, portanto, está na vida. E é curioso quando vemos professores das áreas de exatas se escondendo da responsabilidade de aplicar as Leis 10.639 e 11.645, que são muito claras em determinar que os conteúdos referentes à história e cultura afro-brasileira e dos povos indígenas deverão ser ministrados no âmbito de todo o currículo escolar. Essa postura só revela o quanto continua sendo eurocêntrica (e pobre) a formação desses professores: só pode afirmar que a África não tem nada a ver com a matemática quem realmente desconhece a história da matemática.

Para além disso, quando pensamos nas divisões entre ciências exatas, humanas e biológicas, nos remetemos a uma organização dos saberes que não é natural, mas histórica – e certamente cheia de contradições. Não serão essas divisões por demais arbitrárias? Caberão essas separações cartesianas nos saberes africanos? A etnomatemática traz uma reflexão que pode nos fazer repensar o que pensamos que sabemos: aquilo que aprendemos (ou tentamos aprender!) pode não ser a única forma de organizar os variados conhecimentos humanos, acumulados antes de nós… E talvez, depois de tanto separar, seja preciso juntar.

Referências bibliográficas

Matemática e culturas africana e afro-brasileira – afroetnomatemática (valores afro-brasileiros na educação). TV Escola. Vídeo. 19min. Disponível em http://ambiente.educacao.ba.gov.br/conteudos-digitais/conteudo/exibir/id/2675. Acesso em março/ 2014.

CUNHA JR., Henrique. <emAfroetnomatemática, África e afrodescendência. Disponível em http://www.tvbrasil.org.br/fotos/salto/series/151432Valoresafrobrasileiros.pdf#page=43. Acesso em março/ 2014.

D’AMBRÓSIO, Ubiratan. Etnomatemática – elo entre as tradições e a modernidade. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.

_____________________. Etnomatemática: arte ou técnica de explicar e conhecer. São Paulo: Ática, 1990.

GERDES, Paulus. Etnomatemática – Cultura, Matemática, Educação. Maputo: Instituto Superior Pedagógico, 1991.

_______________. Vivendo a Matemática: Desenhos da África. São Paulo, Scipione, 1990.

NKOSI, Deivison. As contribuições africanas para o desenvolvimento humano-universal. Registro de palestra. Disponível em http://www.acaoeducativa.org.br/fdh/?p=1760. Acesso em março/2014

Rol de teses do GEPEm – Grupo de Estudos e Pesquisas em Etnomatemática (Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo). Disponível em http://www2.fe.usp.br/~etnomat/. Acesso em março/2014.

Anúncios